sexta-feira, 15 de março de 2013

O elogio do fracasso, da tentativa e do erro

Quando se falha, a questão principal não devia ser encontrar-se o culpado, porque, como é tão frequente, perde-se mais tempo no exercício e no exorcismo da culpa que raramente se chega aos culpados. Portanto, até por razões de eficiência, se devia abandonar a atitude e a necessidade de discutir a culpa e de encontrar os culpados. Discuta-se o erro e a solução para o abolir. Note-se que a retórica fala sempre em encontrar os culpados (por exemplo, um incendiário por acidente ou  “motu” próprio), mas, quando se trata, da burocracia governamental e adjacências diz-se “apurar responsabilidades”.
Mas há mais razões para se deixar de procurar culpados ou fazer inquéritos para se disseminar a irresponsabilidade por tantos que é impossível perceber alguma coisa. Até porque a esta evidência se junta uma justificação que julgo razoável. Não é a culpa nem a sua expiação que remedeiam o erro, que muitas vezes não tem remédio, e nem sempre a culpa se resolve com uma desculpa. Depois com estas tergiversações nunca se desenvolve a cultura do “zero erro” e “do fazer bem à primeira”. Estas consignas são velhos provérbios oriundos da gestão de qualidade japonesa. Poder-se-à alegar que os “slogans” são velhos, antigos, mas as boas práticas são de sempre. Desde que funcionem devem manter-se.
Quando se percebe o fracasso, está-se pronto para começar de novo. Quando se tem a culpa, vive-se com um peso do passado. No primeiro vive-se num horizonte de responsabilidade individual e colectiva. No segundo entra-se no reino do arbítrio pessoal.
Em períodos de menor auto-estima surgem os arautos da denominada pedagogia do êxito, uma adaptação de um tipo de didáctica à psicologia colectiva nacional. Sem querer fazer doutrina parece-me que entre os problemas  ou as principais dificuldades portuguesas seja lidar com o sucesso e com o êxito. Muito pelo contrário, creio que a nossa grande questão é não saber gerir o fracasso. Isto são sintomas que explicam muita da falta de espírito de iniciativa, de uma certa inacção à espera de perceber o rumo e os caminhos que se fazem, de quem só quer agir com a quase certeza de que vai ganhar. Ora, para se alterar esta situação não se deve fazer nem dar hossanas ao sucesso mas fazer o elogio de quem falha. Por que é a lei das probabilidades: quem toma muitas decisões, quem faz muitas coisas, tem taxas de insucessos superiores a quem nada faz.
É o medo do insucesso que explica muito do que se passa em torno de das falências de empresas e de projectos, e que obviamente cria uma espécie de “abutres” especializados em tirar todas as vantagens destes processos, que se fossem mais céleres e menos penalizantes socialmente. Estamos longe das famílias, que como dizia José Cardoso Pires em O Delfim, punham luto sempre que havia uma falência, mas é ainda é muito complicado, socialmente, ver-se numa falência um simples insucesso. Se for fraudulenta, é crime. E isso é um outro assunto. Estamos muito longe do herói de Cosmopólis de Don Delillo, em que “a extensão lógica dos negócios é o assassinato”.