quinta-feira, 9 de maio de 2013

Quem sabe usar o silêncio, sabe usar o tempo



Num recente livro José Tolentino Mendonça diz que nos tornámos doentes do tempo: “um desenvolvimento sereno do tempo não nos basta” e por isso “entramos num ciclo sôfrego de atenção, actividade e consumo” como ilustram os horários dilatados de trabalho, as solicitações ininterrupta. Se alguma culpa se pode atribuir para esta situação aos denominados ladrões de tempo que o sociólogo Alec Mackenzie identificou no seu livro As Armadilhas do Tempo (The Time Trap). Nesta lista de 20 causas vai das interrupções constantes do telefone, e-mail, redes sociais, do planeamento inadequado, ao foco nas crises e curto prazo, passando pela interrupção do trabalho com trivialidades, reuniões desnecessárias e mal preparadas, papéis inúteis, querer fazer muitas coisas ao mesmo tempo, visitas inesperadas, delegação ineficiente, desorganização pessoal, falta de auto-disciplina, a incapacidade para dizer “não”, desídia (uma mistura entre preguiça e indecisão), tarefas sem acabar.
Por isso José Tolentino Mendonça diz que o caminho da transformação passa pela verdade, aprendizagem e renúncia e que o primeiro passo é a renúncia da “obsessão pela omnipotência”, ou seja, “temos de ter a coragem de perceber e aceitar os limites, pedir ajuda mais vezes, e dizer ‘basta por hoje’, sem o sentimento de culpa a martelar”. Por outro lado, “aprender a planificar com sabedoria o dia a dia, hierarquizando as actividades, e concentrando melhor a nossa entrega. Precisamos aprender a racionalizar e a simplificar, sobretudo as tarefas que se podem prever ou se repetem”. Desta forma se pode reconquistar a possibilidade de ouvir o mundo e escutar o nosso coração, os prazeres simples “que só a lentidão e o silêncio nos fazem aceder”.
Como banda sonora para este momentos podemos usar a peça de 4’33’’ de John Cage: O compositor considerava esta peça silenciosa como a “minha peça mais importante (…) Não passa um só dia que não me sirva dela para minha vida e para tudo o que faço. Recordo-a sempre que tenho de escrever uma nova peça”. Ou então o disco mais singular da discoteca de Tom Waits que é The Best of Marcel Marceau: “tem 40 minutos de silêncio seguidos de aplausos, e vendeu muito bem nos anos 70”.
José Tolentino Mendonça, “Nenhum Caminho será Longo- Para uma Teologia da Amizade”, Paulinas Editora, 2012