sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Fernando Pessoa, o empreendedor português

A figura de eleição como empreendedor, ou seja, quem tem, no meu entender, as características e as atitudes que mais se aproximam ao espírito do empreendedor, é Fernando Pessoa (1888-1935). Porque fez muitas coisas bem feitas, falhou em muitas outras, mas insistiu e persistiu sempre e o seu legado multifacetado ficou. Tem, ainda, a vantagem de mostrar que se pode ser empreendedor em múltiplas facetas e campos de actividade. Aliás seria importante, até porque temos recursos humanos escassos, que os cursos e as sensibilizações para o empreendedorismo, abrangessem as áreas jurídicas e humanísticas. Recente estatística sobre a empregabilidade dos licenciados referia que um dos cursos que gera mais desemprego é o de Psicologia. Curiosamente num inquérito ao empreendedorismo feito junto de estudantes universitários era o curso de Psicologia que tinha o pior índice, apenas 11% dos estudantes gostaria de criar o seu próprio negócio ou emprego, para uma média de 26%. Tal como dizia um investigador norte-americano, Hynes, a educação para o empreendedorismo podia e devia ser promovida e fomentada para além dos cursos das áreas económicas e tecnológicas.
Mas regressando Fernando Pessoa. Nunca teve grande sucesso nas suas várias tentativas empresariais mas nunca desistiu, foi persistente. Nunca enriqueceu mas nem por isso deixou de tentar. Fervilhava em projectos e fazia tudo para os executar. Fez revistas, jornais, foi donos de dois negócios, imaginou empresas e negócios, inventos, escreveu. Talvez sorriam mas para os mais cépticos gostaria só de citar uma frase de Gustavo Franco, um ex-presidente do Banco Central do Brasil, que se refere ao poeta e escritor: “habilidoso administrador de uma rede de cerca de setenta pseudónimos e heterónimos com formações e qualidades as mais diversas, incluindo a engenharia naval, as artes do oculto, a militância política e a helenística”. Claro que tinha coisas muito portuguesas. Como dizia um dos seus patrões, “raramente chegava a horas”.
Em 1919 Fernando Pessoa publica no jornal Acção, um primeiro texto de intervenção económico, “Como organizar Portugal”, em que surge como defensor da industrialização, um pouco contra as correntes de opinião dominantes, afirmando que “o industrialismo sistemático, sistematicamente aplicado, é o remédio para as decadências de atraso, é, portanto, o remédio para o mal de Portugal”.
Um aspecto importante a salientar no que se poderia chamar pensamento económico de Fernando Pessoa é a sua preocupação com o incremento das exportações e da sua consequente organização empresarial. São inúmeros os textos, os relatórios, as notas e os apontamentos existentes no espólio sobre o tema do comércio de importações e exportações, o que também tem que ver com a sua ligação profissional ao mundo import export. Por isso, o seu projecto ia no sentido da modernização da organização empresarial onde desce ao detalhe de mencionar “o aperfeiçoamento das embalagens”, passando pela ideia de que a empresa exportadora devia comercializar os seus produtos “sob marcas próprias”. E Pessoa não deixa de reflectir, aliás fá-lo com alguma minúcia, sobre os preceitos práticos da boa gestão e da excelência empresarial. De facto, por exemplo, A essência do comércio é quase uma aula moderna de marketing com a sua insistência do “foco no cliente”. Há em alguns dos seus textos uma ideia de cluster antes de Michael Porter, avant la lettre, e em "Bases para a formação de uma empresa de produtos portugueses" escreve funcionaria como um agrupamento de várias empresas com o objectivo de ter capacidade de exportação e de implantação nos mercados internacionais: “Se estabeleceriam gradualmente no estrangeiro, e começando pelas principais cidades, lojas para a venda directa ao público de produtos portugueses”.
Fernando Pessoa também sonhou ser empresário de vários negócios, tendo chegado de facto a ser dono de uma tipografia, a Íbis, e de uma editora, a Olisipo. Nesta editora tinha um minucioso plano de negócios e o falhanço dos seus negócios residiu em duas causas. A primeira, a falta de apoios financeiros, eram tempos de agiotas e não de banqueiros. E em segundo lugar o seu foco principal era a sua obra literária. Como revelou num Plano de Vida de 1919, se os negócios corressem bem, poderiam ajudar a “organizar em perfeito paralelismo a minha vida prática e a minha vida especulativa”. E se na prática foi um empreendedor fracassado, não deixou de imaginar, o seu grupo de empresas e de negócios, uma espécie de Fernando Pessoa SGPS e de escrever com minúcia os seus escritórios de representação, de comissões, as empresas exportadoras, a sua editora.

Mas de empreendedorismo fala a sua arca, que é um quase uma fonte inesgotável de textos, um quebra-cabeças, uma obra que parece estar em actualização permanente, quase como se fosse uma metáfora literária da Web. Com isto pretendo dizer que mesmo com pouco recursos é possível recombinar, inovar, fazer mais e de maneira diferente, sendo persistente e tentando sempre, o que é no fundo a ideia que se tem do empreendedor. Num estudo feito há quatro anos com estudantes universitários, este identificavam o empreendedor como alguém com paixão, entusiasmo, iniciativa e persistência, uma pessoa que teria capacidade para transformar o potencial de uma ideia e que estava disposto a correr grandes riscos por causa de uma nova ideia, que não precisava de ser radicalmente nova. É o que nos precisamos para ultrapassar mais uma crise que dura há mais de uma década e que nos levou a vergar a cerviz e viver como se fossemos um protectorado.