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domingo, 2 de fevereiro de 2014

Sucesso pessoal

Estão cheias as livrarias de todo o mundo de livros que ensinam a vencer. Muitos deles contêm indicações interessantes, por vezes aproveitáveis. Quase todos se reportam particularmente ao êxito material, o que é explicável, pois é esse o que supremamente interessa à grande maioria dos homens.

A ciência de vencer é contudo, facílima de expor; em aplicá-la, ou não, é que esta o segredo do êxito ou a explicação de falta dele.

Para vencer - material ou imaterialmente - três coisas definíveis são precisas: saber trabalhar, aproveitar oportunidades, e criar relações. O resto pertence ao elemento indefinível, mas real, a que, à falta de melhor nome, se chama de sorte.

Não é o trabalho, mas o saber trabalhar que é o segredo do êxito no trabalho; saber trabalhar quer dizer: não fazer um esforço inútil, persistir no esforço até ao fim, e saber reconstruir uma orientação quando se verificou que ela era, ou se tornou, errada.

Aproveitar oportunidades quer dizer não só não as perder, mas também achá-las.

Criar relações tem dois sentidos - um para a vida material, outro para a vida mental. Na vida material a expressão tem o seu sentido directo. Na vida mental significa criar cultura. A história não regista um grande triunfador material isolado, nem um grande triunfador mental inculto. Da simples “vontade” vivem só os pequenos comerciantes; da simples “inspiração” vivem só os pequenos poetas. A lei é uma para todos.

Nota

Foi publicado na Revista de Comércio e Contabilidade, nº5, 25 de Maio de 1926. Em 10 de Junho de 1919 escreveu a Hector Durville, que se intitulava professor na Escola Prática de Magnetismo e Massagem, pedindo-lhe informações sobre os cursos de magnetismo pessoal por correspondência. Na carta diz que pretende desenvolver o seu magnetismo pessoal e queixa-se da sua falta de assertividade. 


segunda-feira, 24 de junho de 2013

Uma campanha de propaganda segundo Fernando Pessoa

Dedicámos à psicologia da propaganda a mais curiosa e atenta consideração, sem ser por outra razão, a princípio, que não fosse científica, de mero interesse intelectual, ligado, mais recente­mente, a uma série de publicações que tencionamos fazer, algu­mas relacionadas com a propaganda neste país.
O facto primordial da propaganda, e determinante essencial da sua eficácia, parece‑nos ser a sua indirecção, digamos assim. Na proporção em que a propaganda se torna mais óbvia, mais tendên­cia tem para trair os seus propósitos. Podereis dizer que esta ideia não é nova, e que uma descoberta equivalente na ciência ou na indústria dificilmente teria garantida uma patente, pela sua novi­dade. Todavia, uma vez que é persistentemente ignorada na prá­tica, não poderá ser tenazmente, ou claramente, defendida como teoria. Se um grande número de publicações da especialidade, dedicadas ao que se pode chamar a “propaganda de exportação” coordenasse as suas actividades e as diluísse com generalidades, conseguiriam resultados muito mais avantajados do que conse­guem individualmente. Pomo‑vos esta questão: suponde que, em vez dos suplementos de comércio, digamos, de The Times e The Manchester Guardian, estes dois jornais, ou cada um por si (a hipótese de coordenação é desnecessária) publicassem, em língua estrangeira, e para uso no exterior, edições como The Times Weekly Edition, contendo uma generalidade de notícias, um grande volume de artigos em todas as especialidades, e, em complemento, a propaganda especial pretendida, considerais que estes jornais teriam menos efeito do que têm as publicações da especialidade?
Um outro exemplo. Há pouco tempo, o Sr. Grant Richards(1), o editor, na sua secção de anúncios do Times Literary Supple­ment, em cartas para esse semanário, e para mais algum, insistiu fortemente na necessidade de uma propaganda através de livros. A ideia, supomos, não deu em nada, tal como todas essas ideias, pela sua falta de um princípio condutor fulcral, tal como o apa­rentemente pouco inovador que vos apresentamos, que nulifica, necessariamente — podemos quase dizer estultifica — a sua [espaço vazio]. Nunca adquirem momentum.
Se a propaganda britânica é menos eficientemente organizada do que a alemã e a americana, se uma proposta respeitante à propa­ganda terá muito mais probabilidade de ser aceite por uma orga­nização industrial alemã ou americana, podereis perguntar‑nos, com alguma justiça, por que razão vos escrevemos agora, e não a organizações correspondentes ou similares de um desses países. A essa dúvida possível adiantaremos uma resposta parcial, ainda que satisfatória. Esta resposta será, necessariamente, dada den­tro de maior confidencialidade do que a da restante carta.
A razão é em parte pessoal (e essa é a parte que poremos de lado), e é também política e nacional. Em publicações que pretendemos trazer à luz, propomos tornar a aliança Anglo‑Por­tuguesa a base da parte respeitante à “política internacional”; desde já declinamos quaisquer esperanças que se formem quanto a sermos capazes de alterar o curso da história ou …
Não somos a favor da invasão americana da Europa, ou do exercício (ou sua retoma) da influência alemã neste país, sendo que os resultados dessa influência na Espanha, que são enormes, já são maus que chegue, pelo menos no que diz respeito a Por­tugal. Em relação à América, não pensamos que haja alguma vantagem em que a doutrina Monroe(2) venha a ser abolida, na sua acção inversa; e estamos suficientemente vigilantes, à nossa modesta maneira, e não somos tão estúpidos que tenhamos de ler nas entrelinhas do plano subtil aflorado por Walter Rathenau na entrevista com o representante de Answers.
O facto de sabermos o que esse homem é, e o que ele fez na Guerra, e o que poderá vir a fazer, o conhecimento psicológico da mistura peculiarmente perigosa de um líder industrial e de um filósofo idealista …
Tal como se diz (com verdade) que todo o criminoso comete pelo menos um erro, assim também o mais cuidadoso dos diplomatas ao menos uma vez há‑de falar demasiado.
1. Franklin Thomas Grant Richards (1872‑1948) foi um grande editor britânico de autores como G. B. Shaw, G. K. Chesterton, Alfred Noyes, John Masefield, James Joyce, mas não se distinguiu pela sua capacidade de gestão, pois alguns dos seus empreendimentos faliram. Em 1917 começou a escrever sobre publicidade no Times Literary Supplement. Foi autor de Memories of a misspent youth.
2. Em 1823, as Américas estavam a ser abaladas por movimentos independentistas nas colónias europeias, e o então presidente dos Estados Unidos, James Monroe, enviou ao Congresso americano uma mensagem em que defendia as Américas para os americanos, considerando que o continente americano não podia ser recolonizado; era inadmissível a intervenção de qualquer país europeu nos negócios internos ou externos de países america­nos, e os Estados Unidos, em troca, abster‑se‑iam de intervir nos negócios pertinentes aos países europeus. Esta ficou para a história como a doutrina Monroe.
Nota
Este texto é constituído por quatro páginas de notas dactilografadas, com algumas emendas manuscritas, quase indecifráveis, escritas em inglês. Seriam notas para uma carta em que se propunha a criação de livros e publicações que ajudassem a propaganda anglo‑portuguesa a responder à propaganda alemã e norte‑americana. Apesar do seu carácter fragmentário faz uma reflexão interessante sobre os vários modelos de propaganda.



Publicado em Filipe S. Fernandes, Organizem-se- A Gestão Segundo Fernando Pessoa, Oficina do Livro, 2007

quinta-feira, 20 de junho de 2013

A organização segundo Fernando Pessoa

Texto base da TEDx proferida na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa em Setembro de 2012


O poeta brasileiro, Ferreira Gullar, costuma chamar-lhe “Fernando Pessoas”. É uma forma de incluir no seu nome os inumeráveis heterónimos que gerou tais como Álvaro de Campos, Bernardo Soares, Ricardo Reis, e a diversidade de textos que escreveu como O Livro do Desassossego, O Banqueiro Anarquista, A Mensagem, a Tabacaria. E se hoje é um dos gigantes da literatura de língua portuguesa e um dos cânones da literatura universal a sua curiosidade e reflexão espalharam-se para além do domínio literário, propagaram-se pela filosofia, o esoterismo, a economia. Preocupou-se com o que definia como “quotidiano e tributável”. Estudou numa escola comercial na África do Sul e isso marcou muito do que fez profissionalmente. Trabalhou em muitos escritórios da baixa lisboeta como correspondente estrangeiro em casas comerciais, que, juntamente com a função de tradutor, acabaram por ser as suas profissões principais. Foi sempre um profissional liberal pois como escreveu “odeio todo o trabalho imposto
Publicitário
Uma das suas actividades profissionais mais conhecidas é a sua prática publicitária como este anúncio para a Coca-Cola publicado pelo Diário de Lisboa em 1927 e que diz “O refresco americano Coca-Cola: No primeiro dia: Estranha-se No quinto dia: Entranha-se”. Curiosamente, a frase que ficou para a história foi a escrita pelo Ricardo Jorge, director-geral da Saúde, então no âmbito do Ministério do Interior, a 23 de dezembro de 1927 em que explicava as razões para a proibição: “Nos anúncios com que se fez nos periódicos propaganda da Coca-Cola, dizia-se: 'A princípio estranha-se, mas depois entranha-se.' Um convite ao vício ou uma especulação com o vício.”
Lúdico
Este indisciplinador intelectual tinha uma grande vontade empreendedora pois teve uma gráfica, uma editora de livros, fez revistas, criou várias empresas de comissões, foi inventor. Estes seus interesses tinham como objectivo, como ele dizia, “organizar em perfeito paralelismo a minha vida prática e a minha vida especulativa, de modo a que a primeira nunca possa prejudicar a segunda, à qual está, por um dever mais alto, subordinada”.
Como dizia Richard Zenith, nos negócios interessavam-lhe mais pelo aspecto lúdico do que pelo lucro mas era sempre empenhado. Numa carta à namorada Ofélia de 11 de Junho de 1920 queixa-se: “querem, em, geral, que eu faça tudo – que eu, além de ter as ideias e indicar a maneira de as organizar, me ocupe também de arranjar os capitais e de fazer quanto mais for preciso para por a empresa em marcha”.
Podemos dizer a partir das suas ideias económicas que Fernando Pessoa tinha um concepção liberal da economia defendendo a concorrência e o mercado. O seu programa de desenvolvimento para Portugal assentava na industrialização, nas exportações e na organização.
Aliás tem num manuscrito uma frase lapidar sobre as empresas e estas “existem para um fim comercial, de lucro; não para um fim moral ou filantrópico”, que soa a Milton Friedman…
Industrialização
Em 1919 publicou num jornal sidonista em que participava na gestão, A Acção, um texto intitulado Como Organizar Portugal em que surgia como defensor da industrialização, um pouco contra as ideias dominantes mais agrárias e comerciais, mas numa época em que se deu um surto de industrialização.
Dizia que “Como se trata de um país atrasado, e todos os países atrasados são predominantemente agrícolas, é evidente que a única transformação profissional a fazer, e que preenche todas as condições exigidas, é a industrialização sistemática do país. Educação simultaneamente da inteligência e da vontade, transformador ao mesmo tempo da mentalidade geral e do atraso material do país, o industrialismo sistemático, sistematicamente aplicado, é o remédio para as decadências de atraso, é, portanto, o remédio para o mal de Portugal”. No seu espólio encontra-se um texto incompleto sobre a política industrial.
Estado
Apesar disso, tinha uma grande desconfiança em relação ao Estado:
“Economicamente o Estado é um mito. O Estado administra sempre mal. O Estado drena a energia particular
De todas as coisas “organizadas”, é o Estado, em qualquer parte ou época, a mais mal organizada de todas. E a razão é evidente”
Porque para Pessoa a administração de Estado não deveria passar da “da estrita actividade fiscal e tributária que só ao Estado compete, porque só ao Estado pode competir” mas o Estado deveria evitar a administração de comércios ou indústrias.
Exportações
Além do que escreveu, por exemplo, na Revista de Comércio e Contabilidade, são inúmeros os textos, os relatórios, as notas e os apontamentos existentes no espólio sobre o tema do comércio de importações e exportações, o que também tem a ver com a sua ligação profissional a este universo. E esta preocupação era tão mais vincada pelo facto de considerar que
A exportação portuguesa é, em relação ao que poderia ser ou tornarse, pequena, mal orientada, e mal coordenada. Nem há concorrência interna, o que significaria actividade intensa entre os exportadores individuais, nem cooperação nacional entre eles”. E ainda hoje o peso das exportações no PIB é baixo, cerca de 34% contra 80% na Bélgica ou 90% na Irlanda.
Os seus textos sobre esta temática têm a particula­ridade de serem tanto sobre projectos de organização empresarial virados para os mercados externos, em que muitas vezes chegam à minúcia da organização por depar­tamentos, como reflexões sobre o serviço a prestar aos clientes, o marketing e do próprio packing. Desce ao detalhe de mencionar “o aperfeiçoamento das embalagens”, passando pela ideia de que a empresa exportadora devia comercializar os seus produtos “sob marcas próprias”. De facto, nesta época, as exportações portu­guesas eram sobretudo de produtos alimentares, nomeadamen­te vinhos correntes e vinho do Porto, com a agravante de serem vendidos a granel, ou seja, as exportações nacionais tinham um baixo teor de transformação industrial, com muito pouco valor acrescentado.
Por exemplo, “A essência do comércio” é quase uma aula moderna de marketing com a sua insistência do “foco no cliente”. “Um comerciante, qualquer que seja, não é mais que um servidor do público, ou de um público (…) Ora toda a gente que serve, deve, parecenos, agradar a quem serve. Para isso é preciso estudar a quem se serve (…) temos que ver é como eles efectivamente pensam, e não como é que nos seria agradável ou conveniente que eles pensassem”.
Num dos textos “Bases para a formação de uma empresa de produtos portugueses”, imagina uma empresa que funcionasse como um agrupamento de várias empresas com o objectivo de ter capacidade de exportação e de implantação nos mercados internacionais, as empresas estabelecer-se-iam “gradualmente no estrangeiro, e começando pelas principais cidades, lojas para a venda directa ao público de produtos portugueses”.
Organização
Pessoa reflecte, aliás fá‑lo com alguma minúcia, sobre os preceitos prá­ticos da boa gestão e da excelência empresarial e o cerne da sua preocupação é a organização, o que não deixa de ser interessante porque é hoje provavelmente uma das principais causas para as nossas dificuldades, a tão decantada competitividade do país.
Para Fernando Pessoa a organização era mais do que um processo tecnológico e um conjunto de procedimentos. A sua visão ia para o que hoje chamamos gestão. Como dizia Fernando Pessoa “a organização é, por sua natureza, um fenómeno intelectual, um trabalho de inteligência. A referida “indústria de organiza­ção” é, portanto, uma indústria intelectual”, que podemos supor que seria a consultoria e na época em que escrevia estas palavras era fundada nos Estados Unidos a McKinsey, a consultora de estratégia mais relevante.
E noutro texto diz “organizar é, essencialmente, um fenómeno intelectual. Há muitas coisas que se executam por palpite, imensas que se fazem empiricamente, pelo hábito e a experiência. Mas a organização estável, ou seja a organização propriamente dita, é um trabalho de inteligência”.
No texto processo de organização escreveu que “sistemas, processos, móveis, máquinas, aparelhos são — como todas as coisas mecânicas e materiais — elementos puramente auxiliares. O verdadeiro processo é pensar; a máquina fundamental é a inteligência…”
O texto como se organiza uma trading: “nós, os portugueses, não temos uma tradição comercial; não somos, portanto, naturalmente e instintivamente comerciantes. Sendo assim, temos de compensar essa deficiência com uma apli­cação da inteligência — com a organização, portanto
Conclusão
Se alguma lição de actualidade se pode retirar destes textos de Pessoa é a sua insistência na inteligência (que é educação, que é formação, que é discernimento, que é ciência, que é subir na cadeia de valor, que é…) como principal recurso estratégico para o nosso desenvolvimento.

domingo, 16 de junho de 2013

Três categorias de homens

Os homens dividem‑se, na vida prática, em três categorias — os que nasceram para mandar, os que nasceram para obedecer, e os que não nasceram nem para uma coisa nem para outra. Estes últimos julgam sempre que nasceram para mandar; julgam‑no mesmo mais frequentemente que os que efectivamente nasceram para o mando.

Fernando Pessoa

sábado, 15 de junho de 2013

Para vencer

Para vencer — material ou imaterialmente — três coisas defi­níveis são precisas: saber trabalhar, aproveitar oportunidades, e criar relações. O resto pertence ao elemento indefinível, mas real, a que, à falta de melhor nome, se chama de sorte.
Não é o trabalho, mas o saber trabalhar que é o segredo do êxito no trabalho; saber trabalhar quer dizer: não fazer um esforço inútil, persistir no esforço até ao fim, e saber reconstruir uma orientação quando se verificou que ela era, ou se tornou, errada.
Aproveitar oportunidades quer dizer não só não as perder, mas também achá‑las.
Criar relações tem dois sentidos — um para a vida material, outro para a vida mental. Na vida material a expressão tem o seu sentido directo. Na vida mental significa criar cultura. A histó­ria não regista um grande triunfador material isolado, nem um grande triunfador mental inculto. Da simples “vontade” vivem só os pequenos comerciantes; da simples “inspiração” vivem só os pequenos poetas. A lei é uma para todos.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Erro de empregado

É do pior gosto, e do pior efeito, desculpar‑se um chefe com “um erro dum empregado”. Não há erro de empregados. Todo o erro dum empregado é apenas o erro de ter empregados que fazem erros.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Fernando Pessoa, o empreendedor português

A figura de eleição como empreendedor, ou seja, quem tem, no meu entender, as características e as atitudes que mais se aproximam ao espírito do empreendedor, é Fernando Pessoa (1888-1935). Porque fez muitas coisas bem feitas, falhou em muitas outras, mas insistiu e persistiu sempre e o seu legado multifacetado ficou. Tem, ainda, a vantagem de mostrar que se pode ser empreendedor em múltiplas facetas e campos de actividade. Aliás seria importante, até porque temos recursos humanos escassos, que os cursos e as sensibilizações para o empreendedorismo, abrangessem as áreas jurídicas e humanísticas. Recente estatística sobre a empregabilidade dos licenciados referia que um dos cursos que gera mais desemprego é o de Psicologia. Curiosamente num inquérito ao empreendedorismo feito junto de estudantes universitários era o curso de Psicologia que tinha o pior índice, apenas 11% dos estudantes gostaria de criar o seu próprio negócio ou emprego, para uma média de 26%. Tal como dizia um investigador norte-americano, Hynes, a educação para o empreendedorismo podia e devia ser promovida e fomentada para além dos cursos das áreas económicas e tecnológicas.
Mas regressando Fernando Pessoa. Nunca teve grande sucesso nas suas várias tentativas empresariais mas nunca desistiu, foi persistente. Nunca enriqueceu mas nem por isso deixou de tentar. Fervilhava em projectos e fazia tudo para os executar. Fez revistas, jornais, foi donos de dois negócios, imaginou empresas e negócios, inventos, escreveu. Talvez sorriam mas para os mais cépticos gostaria só de citar uma frase de Gustavo Franco, um ex-presidente do Banco Central do Brasil, que se refere ao poeta e escritor: “habilidoso administrador de uma rede de cerca de setenta pseudónimos e heterónimos com formações e qualidades as mais diversas, incluindo a engenharia naval, as artes do oculto, a militância política e a helenística”. Claro que tinha coisas muito portuguesas. Como dizia um dos seus patrões, “raramente chegava a horas”.
Em 1919 Fernando Pessoa publica no jornal Acção, um primeiro texto de intervenção económico, “Como organizar Portugal”, em que surge como defensor da industrialização, um pouco contra as correntes de opinião dominantes, afirmando que “o industrialismo sistemático, sistematicamente aplicado, é o remédio para as decadências de atraso, é, portanto, o remédio para o mal de Portugal”.
Um aspecto importante a salientar no que se poderia chamar pensamento económico de Fernando Pessoa é a sua preocupação com o incremento das exportações e da sua consequente organização empresarial. São inúmeros os textos, os relatórios, as notas e os apontamentos existentes no espólio sobre o tema do comércio de importações e exportações, o que também tem que ver com a sua ligação profissional ao mundo import export. Por isso, o seu projecto ia no sentido da modernização da organização empresarial onde desce ao detalhe de mencionar “o aperfeiçoamento das embalagens”, passando pela ideia de que a empresa exportadora devia comercializar os seus produtos “sob marcas próprias”. E Pessoa não deixa de reflectir, aliás fá-lo com alguma minúcia, sobre os preceitos práticos da boa gestão e da excelência empresarial. De facto, por exemplo, A essência do comércio é quase uma aula moderna de marketing com a sua insistência do “foco no cliente”. Há em alguns dos seus textos uma ideia de cluster antes de Michael Porter, avant la lettre, e em "Bases para a formação de uma empresa de produtos portugueses" escreve funcionaria como um agrupamento de várias empresas com o objectivo de ter capacidade de exportação e de implantação nos mercados internacionais: “Se estabeleceriam gradualmente no estrangeiro, e começando pelas principais cidades, lojas para a venda directa ao público de produtos portugueses”.
Fernando Pessoa também sonhou ser empresário de vários negócios, tendo chegado de facto a ser dono de uma tipografia, a Íbis, e de uma editora, a Olisipo. Nesta editora tinha um minucioso plano de negócios e o falhanço dos seus negócios residiu em duas causas. A primeira, a falta de apoios financeiros, eram tempos de agiotas e não de banqueiros. E em segundo lugar o seu foco principal era a sua obra literária. Como revelou num Plano de Vida de 1919, se os negócios corressem bem, poderiam ajudar a “organizar em perfeito paralelismo a minha vida prática e a minha vida especulativa”. E se na prática foi um empreendedor fracassado, não deixou de imaginar, o seu grupo de empresas e de negócios, uma espécie de Fernando Pessoa SGPS e de escrever com minúcia os seus escritórios de representação, de comissões, as empresas exportadoras, a sua editora.

Mas de empreendedorismo fala a sua arca, que é um quase uma fonte inesgotável de textos, um quebra-cabeças, uma obra que parece estar em actualização permanente, quase como se fosse uma metáfora literária da Web. Com isto pretendo dizer que mesmo com pouco recursos é possível recombinar, inovar, fazer mais e de maneira diferente, sendo persistente e tentando sempre, o que é no fundo a ideia que se tem do empreendedor. Num estudo feito há quatro anos com estudantes universitários, este identificavam o empreendedor como alguém com paixão, entusiasmo, iniciativa e persistência, uma pessoa que teria capacidade para transformar o potencial de uma ideia e que estava disposto a correr grandes riscos por causa de uma nova ideia, que não precisava de ser radicalmente nova. É o que nos precisamos para ultrapassar mais uma crise que dura há mais de uma década e que nos levou a vergar a cerviz e viver como se fossemos um protectorado.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Os empresários vistos pelos escritores II



Segundo Alcino Pedrosa em Os Empresários na Literatura Económica Portuguesa de Finais de Oitocentos, “nas imagens mas correntes, o empresário figura como o campeão dos valores propagados pela doutrina liberal, como o defensor da liberdade de iniciativa, da limitação da intervenção do Estado, como um indivíduo capaz de racionalmente ter uma conduta, que articule os seus interesses pessoais com o bem-estar geral, gerando riqueza. Enfim, a personificação por excelência do homo economicus”. Acrescenta, “a ideia dominante na literatura económica deste período é a do empresário como protagonista sem rival da racionalidade económica. Dela resulta uma imagem do empresário como homem de sucesso (ou bem sucedido), que constitui uma as características fundamentais da ideologia económica a Regeneração”.

Em O Livro do Desassossego, Fernando Pessoa é mais enigmático, e por isso talvez mais verdadeiro. Para ele, “o dinheiro é belo, porque é uma libertação” e “nunca se deve invejar a riqueza, senão platonicamente; a riqueza é liberdade”. Mas, por outro lado, Vicente Guedes, o heterónimo que habita este livro, confessa: “nunca tive dinheiro para poder ter tédio à vontade...”.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

É essencial gerir


Mesmo que haja um só caminho, há sempre várias formas de preparar a caminhada e de o percorrer.
A história é antiga, tornou-se um exemplo canónico para inúmeros teóricos e práticos da gestão, o últimos dos quais Jim Collins e Morten T. Hansen em Great by Choice, e conta-se em dois parágrafos. Há cerca de 101 anos, duas equipas, uma liderada por Roald Amudsen e outra por Robert Scott, partiram à conquista do Polo Sul. O primeiro cumpriu o objectivo e regressou para contar enquanto o segundo sucumbiu na sua empreitada. A moral é que para um objectivo pode haver vários caminhos, formas diferentes de agir, motivar, planear, e que afinal até pode haver alternativas. Por isso talvez fosse uma boa altura para trocar umas ideias sobre gestão, como parece ser a intenção de Teodora Cardoso, presidente do Conselho de Finanças Públicas, quando disse: "É essencial gerir melhor." Por isso, talvez seja importante que no meio deste vendaval fiscal e da cacofonia europeia que se fale sobre a gestão em Portugal.
Fernando Pessoa, que podemos considerar como o primeiro teórico de gestão português, reflectiu, e com alguma minúcia, sobre os preceitos práticos da boa gestão e da excelência empresarial, e o cerne da sua preocupação era a organização, o que não deixa de ser interessante porque é hoje provavelmente uma das principais causas para as nossas dificuldades, a tão decantada competitividade do país. Para Fernando Pessoa a organização era mais do que um processo tecnológico e um conjunto de procedimentos. A sua visão estava próxima do que hoje chamamos gestão. Dizia que “a organização é, por sua natureza, um fenómeno intelectual, um trabalho de inteligência”.
Noutros textos, alguns dos quais publicados na Revista de Comércio e Contabilidade, dizia que “organizar é, essencialmente, um fenómeno intelectual. Há muitas coisas que se executam por palpite, imensas que se fazem empiricamente, pelo hábito e a experiência. Mas a organização estável, ou seja a organização propriamente dita, é um trabalho de inteligência”. No texto Processo de Organização escreveu que "sistemas, processos, móveis, máquinas, aparelhos são - como todas as coisas mecânicas e materiais - elementos puramente auxiliares. O verdadeiro processo é pensar; a máquina fundamental é a inteligência." Se alguma lição de actualidade se pode retirar destes textos de Fernando Pessoa é a sua insistência na inteligência (que é educação, que é formação, que é discernimento, que é ciência, que é subir na cadeia de valor, que é gestão e organização) como principal recurso estratégico para o nosso desenvolvimento.
Filipe S. Fernandes

Os textos citados encontram-se em Filipe S. Fernandes, “Organizem-se! A Gestão Segundo Fernando Pessoa”, Oficina do Livro, Lisboa, 2007.