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sexta-feira, 28 de abril de 2017

Jorge de Mello, o homem que gostava de empresas I    




No sábado, 9 de novembro de 2013, morria no Hospital Infante Santo, da CUF Saúde, Jorge de Mello, tinha 92 anos. O presidente da República descreveu-o como uma “figura marcante no desenvolvimento industrial português no século XX”. Mas a sua paixão foi a gestão e a criação de empresas.

Fleumático, de pose aristocrática, rosto sisudo mas olhos irónicos, mostrava atenção pelo interlocutor e deixava irromper sempre um humor inteligente. Há várias histórias que o mostram. Certa vez, Ferreira Dias, então ministro da Economia, falava no Conselho Superior da Indústria e defendia a indústria siderúrgica em Portugal usando um dos seus argumentos: “um país sem siderurgia é uma horta”. Jorge de Mello ouviu e retorquiu: “então a Suíça é uma horta”. Quando Américo Amorim lhe comprou a herdade do Peral terá mencionado o facto de ser o homem mais rico de Portugal. Jorge de Mello respondeu: “eu também já fui”. Não esqueceu as afrontas que sofreu, mas não sofria de nostalgia do paraíso perdido. Disse várias vezes: “poderia dizer que cheguei onde queria, mas não digo; também nunca se chega, há sempre qualquer coisa para fazer”. Parafraseando o avô, Alfredo da Silva, Jorge de Mello tinha uma costela Mello, que era “gente séria, de palavra”, uma costela Mayer, judia, “com jeito para o negócio e dada às artes, que sabem viver e são boa companhia”, uma costela Silva, “gente de trabalho, que faz coisas e não sabe estar parada”, e uma costela Oliveira, “que tem o talento da fantasia (…)o que te vai ajudar a adaptares-te a tudo”.

Jorge Augusto Caetano da Silva José de Mello nasceu em Sintra, na Casa do Pombal, comprada pelo avô, a 1 de Setembro de 1921. Era o segundo filho pois Maria Cristina, que viria a casar com António Champalimaud, nascera um ano antes, tendo o terceiro filho, Maria Amélia, nascido em 1922. Portanto naqueles tempos conturbados da República, Jorge era o primogénito, o futuro líder do império. Tinha poucos meses de vida, quando, na sequência da noite sangrenta de 19 de Outubro de 1921, o avô Alfredo da Silva saiu do país. Repartiu o seu maior período de exílio entre Espanha e França, de onde continuou a gerir os seus negócios. A infância de Jorge de Mello foi passada entre Portugal e o estrangeiro. Alfredo da Silva só voltou em 1927, na sequência do golpe militar de 28 de Maio de 1926, que iria estar na base da implantação do Estado Novo. Instalou-se então definitivamente em Portugal, tal como a sua família. A 8 de Dezembro de 1927 nasceu José Manuel de Mello. Viveram a sua infância entre a Casa do Pombal em Sintra e casa no Monte Estoril, um palacete de estilo D. João V do avô Alfredo da Silva, e a Quinta da Riba Fria do pai.

Jorge de Mello afirma que “o meu avô Alfredo da Silva e os meus pais tiveram enorme influência na maneira de ser dos meus irmãos e minha. (...) A nossa educação foi muito germânica, não quero chegar ao exagero de dizer que foi espartana”. Sublinhando que “a influência do meu avô não poderia deixar de ser muito forte e por efeito da sua personalidade, muito afirmativo, muito determinado, com grande confiança em si próprio mas, ao mesmo tempo, muito afectivo, empenhado em transmitir aos netos um quadro de valores e responsabilidades muito nítido, assente nos valores da honra, da justiça e da capacidade de realização”.

Parte do texto Publicado no Jornal de Negócios, suplemento Weekend, de 15 de novembro de 2013

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Dúvidas

A vida ensinou-me que não sei nada. Cada vez tenho menos certezas e cada vez tenho mais dúvidas.
José Manuel de Mello

domingo, 2 de junho de 2013

Peritos e empresários


Não tenho nenhuma confiança nas decisões dos políticos ou dos especialistas em planeamento quando procuram identificar o que os empresários devem fazer ou quais devem ser as prioridades sectoriais. As economias mudam e muito depressa, não ficam à espera do tempo de reflexão dos peritos e menos ainda ficam presas à satisfação dos interesses que se formaram em fases anteriores da evolução da economia. As apostas estratégicas são feitas por quem tem talento empresarial e o que conta é que os centros de racionalidade empresarial possam ter uma localização nacional, possam definir as condições em que se faz a aplicação de capitais.

Jose Manuel de Mello

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Os empresários não se reformam


Há lutas de sucessão, há guerra pelo poder e há impérios empresariais que se esboroam, pequenos negócios que se dissolvem no pasmo dos dias, tudo porque muitas vezes os empresários querem estar nas empresas até ao fim, como se fossem os capitães de um navio e preferissem afundar-se do que salvar alguma coisa. Mas a maior parte das vezes tem a ver com o facto de não conseguirem deixar de fazer

Quando os empresários diziam, como Nelson Quintas, “só me retiro dois anos depois de morrer”, ou José Manuel de Mello, “um empresário não tem reforma”, ou ainda Ingvar Kamprad, da Ikea, “ainda tenho muito trabalho pendente; não tenho tempo para morrer”, não estamos no domínio da jactância mas em pleno campo das motivações e do espírito empresarial. Como, de resto, já Schumpeter tinha intuído quando referiu que “A experiência ensina, todavia, que os empresários típicos se retiram da arena apenas quando e porque sua força está gasta e não se sentem mais à altura de sua tarefa”. Para este economista, a “profissão empresário” não era uma condição duradoura pois este não transferia a técnica para os herdeiros. Estes poderão herdar os activos e as qualidades pessoais mas “a função do empresário em si mesma não pode ser herdada”. E este é um dos principais dramas que marca as sagas empresariais de todos os tempos.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A mão esquerda do subsídio

Os empresários hoje em dia gerem dívida. Não há dinheiro para fazer nada. Há uma geração que tem a mão esquerda mais desenvolvida por causa dos subsídios que recebe de Bruxelas.
José Manuel de Mello

In Filipe S. Fernandes, O Segredo Não É A Alma do Negócio, Matéria-Prima, Lisboa, 2012