sábado, 1 de fevereiro de 2014

Os milionários segundo Fernando Pessoa

Os milionários, e sobretudo os milionários americanos, que são popularmente os típicos, não gozam, em geral, de uma celebridade entusiástica. Do género de consideração que recebem dos que lhes são alheios, é exemplo cómico aquela frase com que Chesterton abre um dos seus contos: «Quer-me parecer que há uma centena de novelas policiárias que começam com a descoberta de que foi assassinado um milionário americano, acontecimento que, por qualquer motivo, é tido como uma espécie de desgraça».

Esta falta de afeição pública é derivada, na sua quase totalidade, da normal inveja humana a quem é muito rico, ou muito poderoso, ou muito inteligente. A inveja, porém, decresce, porque se, altera com a admiração, na proporção em que o invejante tem consciência da impossibilidade de atingir a situação do invejado. É difícil o homem qualquer supor-se capaz de uma celebridade ou, posição que assente na superioridade intelectual; pode, é certo, negar essa superioridade intelectual, mas então o que inveja não é já inteligência que nega, mas a posição ou celebridade, que não pode negar. É mais fácil, mas ainda difícil, supor-se um qualquer capaz de uma celebridade de poder; embora atribua a conquista desse poder a qualidades em si mesmas inferiores, como o servilismo ou a hipocrisia, tem que convir consigo, contra vontade, que o servilismo teve que ser firme e a hipocrisia hábil para conseguirem esse fim. O que ele inveja, portanto, sem que o queira ou confesse, não é o poder conquistado, mas a firmeza, ainda que servil, e a habilidade, ainda que hipócrita, com que esse poder se conquistou.

O caso do dinheiro é inteiramente diferente. O dinheiro é, aparentemente, um fenómeno externo e ocasional, e a fortuna que aquele acumulou em anos de trabalho paciente ou inteligente, pode este igualá-la numa grande noite de roleta, num desvairamento feliz a Bolsa, num bilhete único da lotaria. Estes casos, porém, são excepções, nem os ministra a realidade senão para o fim clássico de provarem a regra. As fortunas assim feitas, rapidamente estão desfeitas: o que o vento trouxe, o vento o leva. Não assentando num acto de inteligência ou de vontade, não há inteligência que as defenda nem vontade que as possa conservar.

O facto é que as grandes fortunas, quando não sejam hereditárias são quase sempre efeito, em sua origem, de um poderoso exercício da vontade ou da inteligência, e particularmente daquela espécie prática da vontade que estabelece uni só fim e dele se não desvia, ou daquela espécie prática da inteligência que consiste na vigilância das oportunidades e no seu aproveitamento imediato. Mais tarde, sim, no desenvolvimento da fortuna, podem entrar outros elementos, mas a vontade ou inteligência original constantemente resguarda e defende o que originalmente criou.


Os milionários são, por trás do dinheiro, homens, e à parte esse dinheiro, têm as qualidades e os defeitos que tinham quando o não tinham. Se havia neles, ingenitamente, uma forte tendência filantrópica, será absurdo que se esqueçam de a realizar quando a podem realizar sem dificuldade. A dureza, a implacabilidade, que miticamente se atribuem aos grandes financeiros, são efeito, não do dinheiro, mas da luta; são comuns a eles e aos lutadores por dinheiro que nunca o alcançaram. Conheço pequenos lojistas, caixeiros de praça, donas de casa, que, em virtude da luta comum pelo dinheiro, têm a mesma dureza, a mesma implacabilidade, que o protagonista do Les affaires sont les affaires. O fundo moral é o mesmo; o que a estes falta é o golpe de vista, a inteligência penetrante, a imaginação construtiva; o que estes não atingem e a riqueza e a posição a que, com esse fundo, essas qualidades levam; o de que estes não sofrem é da visibilidade dessa posição.


In O que um milionário americano fez em Portugal-A Colónia Infantil Macfadden em S. João do Estoril