quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Empreendedor por conta de outrem... e por conta própria


As palavras como as rochas são constituídas por camadas, por extractos, que se sobrepõem, se opõem, se supõem, se entrelaçam, se antagonizam, e a sua decifração conta-nos uma história, situa-nos no tempo. Neste movimento, há percursos singulares. A palavra “empreendedor” conta-nos no seu percurso recente a odisseia da iniciativa privada e individual na nossa história recente. A mesma palavra que hoje surge, polida e luminosa, era nos fim dos anos 70 o eufemismo para empresário; era a fórmula escolhida no início do seu mandato pelo Presidente da República, António Ramalho Eanes (1976-1984) para designar os industriais, comerciantes, os proprietários de empresas, os empresários, os patrões, tudo palavras que tinham uma conotação negativa. Mas o PR, estava longe de imaginar que estava a dar curso a um conceito que, nascido na Califórnia nos anos 60, se traduziria como elemento chave para o desenvolvimento e crescimento económico. Durante muito tempo o empreendedorismo associou-se em Portugal, até pela sua etimologia, a um comportamento empresarial juvenil e a uma atitude de risco; o que tem a sua razão de ser, porque numa sociedade com alguma aversão ao risco – o salazarismo constituiu-se como um movimento anti-moderno – e em que as solidariedades orgânicas se mantiveram durante longo tempo num peculiar desafio aos efeitos da modernização, o risco é exactamente associado a um atributo juvenil. E um dos sinais de mudança da nossa sociedade é de facto a associação da actividade empreendedora à inovação, ao desenvolvimento tecnológico, à mudança e iniciativa, à criação de emprego e de oportunidades.
Na senda do que dizia Peter Drucker os empreendedores são aqueles que criam algo novo, algo diferente; eles mudam ou transformam valores. O espírito empreendedor é uma característica distinta, seja de um indivíduo, ou de uma instituição. Não é um traço de personalidade, mas sim um comportamento e suas bases são o conceito e a teoria, e não a intuição.

A transformação e a apropriação
Esta figura do empreendedor e do empresário que é vista muitas vezes com uma certa ambivalência social, cultural, moral - embora os tempos não corram de feição para os gestores!!!. Mas há uma definição de empresário e empreendedor de João César das Neves. Diz ele: “o empresário é aquela pessoa que tem capital que não é seu, utiliza trabalho que não é seu, e tem ideias que não são suas, mas faz uma realidade nova. Um país que tenha capital, trabalho, matérias-primas e domine tecnologias, mas não tire partido do líder e visionário que é o empresário, não consegue crescer”. Esta definição mostra o lado alquímico do negócio e o lado especulador, a transformação, por um lado, e a apropriação, por outro.
O empreendedorismo e o empreendedor tornaram-se conceitos kit, prontos a ser usados quando se quer falar de inovação, iniciativa, emprego. Por isso gostaria de começar por esclarecer e situar a minha concepção de empreendedor e para isso apropriei-me da definição de um dos ídolos dos empreendedores e que é Belmiro de Azevedo, que ainda recentemente, num inquérito sobre a capacidade empreendedora dos universitários feitos por dois investigadores do Porto (Aurora Teixeira e Todd Davey, “Attitudes of Higher Education Students to New Venture Creation: a Preliminary Approach to the Portuguese Case”, FEP Working Papers, nº 298, Outubro de 2008) foi colocado, juntamente com a Sonae em primeiro lugar como modelos a seguir. Gostaria de salientar que a YDreams ficou em quarto e o professor António Câmara em décimo primeiro lugar e estavam incluídas empresas e gestores internacionais.
Belmiro de Azevedo costuma dizer que não devemos confundir empresário como empreendedor: “não são conceitos redundantes, nem variantes da semântica. São, isso sim, personagens perfeitamente distintas. Se como Empresário identificamos o proprietário ou o accionista de controlo de empresas, esse estatuto pode nada ter que ver com o que eu considero ser o conceito de Empreendedor. Porque só é empreendedor aquele que é capaz de conceber, de por em prática, e de instilar nos que o acompanham, uma atitude de desafio permanente, de vontade de superação da indiferença. E se assim é, o empreendedor pode, também, trabalhar por conta de outrem, até por conta do dito Empresário. Podemos, portanto, deparar com Empresários pouco Empreendedores. Com Empreendedores que não são Empresários. E mesmo funcionários públicos com vocação empreendedora!”. Aliás, um dos gestores da Sonae, que hoje também é empresário, quando estava no grupo dizia que era “um empresário por conta de outrem”, aquele que a teoria denomina na voragem taxinómica como intra-empreendedor, “uma pessoa empreendedora mas dentro de uma organização”. Tanto num caso como no outro o empreendedor está a criar e a defender postos de trabalho. E é esta concepção ampla que tanto o contexto económico como as instituições e os grupos devem ter capacidade de mobilizar, mas para isso têm de ter organização e capacidade de gestão porque se não tudo se reduz a um voluntarismo estéril e quantas vezes sacrificial.

Estrategos e logísticos e o chefe


Depois de perdidas (ou roubadas…) as eleições presidenciais de 1958 e impedido de regressar ao que ocupava de Director Geral da Aviação Civil, Humberto Delgado tentou organizar as forças que o apoiaram num Movimento Nacional Independente. Mas as coisas não estavam a correr bem e numa carta de Carta de 20 de Outubro de 1958 ao directório, constituído por Vieira da Almeida, Artur Andrade, Moreira d’Assunção, Cunha Leal, António Sérgio e Arlindo Vicente, tinha dois desabafos muito interessantes sobre o funcionamento interno das organizações:
Numa delas dizia que naquele movimento “em que abundam os estrategos, mas faltam os logísticos, em que abundam cérebros para congeminar, mas faltam braços para fechar e selar cartas, em que há despesas, mas não há bolsas”. Noutra ficava evidente a dificuldade que ainda hoje em Portugal se tem em aceitar as críticas e de as levar para um plano pessoal: “o chefe /Humberto Delgado/ é um homem que adora a colaboração a que, aliás, por muitos anos de trabalho colectivo e internacional está habituado, ao contrário de tantos que pregam democracia, mas à mais pequena discussão se tornam egocêntricos, egotistas, falantes, mas não ouvintes”. 

Tudo se compra e tudo se vende



António Champalimaud, o grande empresário português, e Ricardo Espírito Santo Salgado, líder do BES, já utilizaram, em circunstâncias diferentes mas com os mesmos objectivos (justificar uma venda…), uma frase idêntica: «na vida, tudo se compra e tudo se vende, menos a honra».
Por sua vez, Belmiro de Azevedo, que também tem a sua faceta de comerciante, gosta de realçar a importância e a dificuldade da venda. Costuma dizer: «aprendese muito a vender, porque vender é muito mais difícil do que produzir». Joe Berardo é mais directo quando diz que «comprar caro, vender barato e casar teso é uma coisa que qualquer um sabe fazer». Tal como José Sousa Cintra, que nos últimos anos parece não ter seguido o seu próprio conselho: «se comprar bem é mais fácil vender». António Horta Osório é mais analítico e defende que «para fazermos bem o comercial e o marketing, temos de fazer bem as contas».
Depois há algumas variações interessantes que merecem alguma
reflexão. Fernando Guedes, o empresário que pegou no Mateus Rosé (que o pai lançou por todo o mundo) e fez da Sogrape a grande empresa de vinhos portuguesa, diz «não queremos vender muito, queremos vender bem», enquanto o empresário de novas tecnologias, Paulo Rosado, ilustra um outro aspecto na área comercial e que é a importância da segunda venda: «é muito mais fácil vender a um segundo cliente do que ao primeiro. A primeira venda requer network ou encontrar alguém visionário e que esteja na disposição de apostar».


Cliente



Antes de fazermos um cliente, fazemos um amigo.
Fernando Guedes (Sogrape)

Uma marca de rosto humano e um relacionamento comercial em
que o cliente é um amigo
Rui Nabeiro (Delta Cafés)

In Filipe S. Fernandes, O Segredo Não É A Alma do Negócio, Matéria-Prima, 2012

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Tudo o que é sólido se dissolve no ar

Há uma frase de Karl Marx no Manifesto do Partido Comunista que é muito glosada e que diz que “tudo o que é sólido se dissolve no ar”. De facto a frase anterior é menos melódica e publicitária mas talvez tão interessante na sua íntegra é “todas as relações fixas, cristalizadas, com o seu cortejo de ideias e opiniões veneráveis, são varridas; todas as novas relações se tornam antiquadas antes de chegarem a consolidar-se”. Nesta aventura da modernidade é citada ciclicamente e parece sempre adequar-se aos tempos que correm, seja pelos ciclos em que o capitalismo é fértil, seja actualização do mito do eterno retorno.
Mas a actual crise na Europa parece reiterá-la com frequência, tanto pela sua duração (2008) como pela intensidade em que numa espécie de tempestade perfeita coincidiram as crises bancárias, de dívida soberana e económica (problemas de crescimento e competitividade). Na sua adequação começa a ser dedilhada pelos gestores, como se tivessem fascinado pela sua plasticidade. Como dizia recentemente Federico González Tejera, NH Hoteles, que tem 400 hotéis e 20 mil empregados, “já não há quase nada fixo nem permanente, e há que ter flexibilidade e agilidade para se adaptar à situação com que se depara e, com independência dela, poder ter os resultados que se pretendem”.

Grandes organizações



Quando uma empresa se torna muito grande, divida-a em companhias mais pequenas. Quando as pessoas que trabalham no mesmo edifício não se conhecem todas, tudo se torna impessoal. É a altura de dividir a empresa.
Richard Branson, patrão da Virgin 

Os empresários como figuras literárias (texto integral)



Quando Urbano Tavares Rodrigues escreveu O Adeus À Brisa não está a referir-se obviamente às performances da empresa concessionária de auto-estradas, cujo acrónimo Brisa pertence mais ao fundador da empresa, Jorge de Brito, do que a qualquer romance ou fluxo de ar ameno. Mas quando se escreve: “já reparou na afinidade entre estragos e estrategos?”, como o faz Maria Gabriela Llansol em O Senhor dos Herbais podemos estar a falar de vários mundos desde o militar até ao dos negócios.
Ao longo deste tempo, enquanto instigadores da actividade produtiva, têm sido retratados, pelos escritores por exemplo, um pouco ao modo como os Gregos viam o comércio. Este era apenas ganância e, portanto, uma actividade desprovida de Sentido. O distanciamento com que este universo da vida é apreendido radica em algumas das suas leis, regras e máximas. Como refere a filósofa Hanna Arendt, “no domínio comercial a divisa ““negócios são negócios” já contém em si mesma a desonestidade do especulador sem escrúpulos”.
O dinheiro sempre foi visto com ambivalência. O poeta e dramaturgo Almeida Garrett em As Viagens na Minha Terra perguntava “Quantas almas é preciso dar ao diabo e quantos corpos se têm de entregar no cemitério para fazer um rico neste mundo” “Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?” “cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis” e Camilo Castelo Branco, em “Onde está a felicidade?”, respondia que a felicidade estava “debaixo de uma tábua onde se encontram cento e cinquenta contos de réis”. O que poderia ter sido mais uma frase para a campanha do finado Banco Privado. Ou então sugerem-se os versos de João de Deus, em “Campo de Flores”: “O dinheiro é tão bonito,/tão bonito, o maganão!/Tem tanta graça, o maldito,/Tem tanto chiste, o ladrão!/O falar, fala de um modo.../ Todo ele, aquele todo.../E elas acham-no tão guapo!/Velhinha ou moça que veja, / Por mais esquiva que seja,/Tlim!/ Papo”.

Da literatura de Oitocentos a Pessoa
Segundo Alcino Pedrosa em Os Empresários na Literatura Económica Portuguesa de Finais de Oitocentos, “nas imagens mas correntes, o empresário figura como o campeão dos valores propagados pela doutrina liberal, como o defensor da liberdade de iniciativa, da limitação da intervenção do Estado, como um indivíduo capaz de racionalmente ter uma conduta, que articule os seus interesses pessoais com o bem-estar geral, gerando riqueza. Enfim, a personificação por excelência do homo economicus”. Acrescenta, “a ideia dominante na literatura económica deste período é a do empresário como protagonista sem rival da racionalidade económica. Dela resulta uma imagem do empresário como homem de sucesso (ou bem sucedido), que constitui uma as características fundamentais da ideologia económica a Regeneração”.
Como assinalou Maria Filomena Mónica, os industriais (e porque não mesmo incluir os empresários enquanto banqueiros, comerciantes) são figuras menores na literatura portuguesa. São quase sempre retratados com feroz ironia, distanciado desprezo ou então, como acontecia com os neo-realistas, como o símbolo do mal.
O industrial que numa das obras de Eça de Queiróz, é Teodorico de A Relíquia, vai trabalhar para uma fábrica de fiação na Pampulha depois de ser expulso de casa pela tia. Torna-se industrial como castigo pela queda de um anjo que afinal era um demónio. Em Alves & Ca, o comércio é o cenário para um enredo de paixão e traição. E Eça conheceu, em casa de Ramalho Ortigão, o industrial João Burnay, que era o gestor da Empresa Industrial Portuguesa, e que dizia que o seu único inimigo pessoal era Hegel.
O primeiro romance em que a industrialização é o pano de fundo foi escrito por Abel Botelho. Em Amanhã surge um patrão da indústria têxtil. O filho dos Carvalho Meireles faz uma fábrica no jardim do palácio e explora sem uma ponta de vergonha e de comiseração os seus trabalhadores. Ramalho Ortigão usou As Farpas para demolir os industriais e os capitalistas. Escreveu em 1876: “nos chefes de indústria, ausência absoluta de espírito de classe, de amor da profissão. Uma vez enriquecido, o industrial procura tornar-se capitalista, homem de negócios, influente político, comendador, visconde, director de bancos, gerente de companhias. E considera a fábrica um desdouro, uma “mesalliance”, um ganha-pão subalterno, com a vantagem principal de representar em cada eleição um peso de duzentos votos, a troco dos quais ele procura colocar-se sob a protecção do Estado e sob o favor dos governos”.
Em O Livro do Desassossego, Fernando Pessoa é mais enigmático, e por isso talvez mais verdadeiro. Para ele, “o dinheiro é belo, porque é uma libertação” e “nunca se deve invejar a riqueza, senão platonicamente; a riqueza é liberdade”. Mas, por outro lado, Vicente Guedes, o heterónimo que habita este livro, confessa: “nunca tive dinheiro para poder ter tédio à vontade...”.
Os romancistas portugueses contemporâneos escusam-se à abordagem do mundo económico e financeiro e fogem à virulência de um Ramalho Ortigão que nas suas As Farpas execrava o industrial, e numa carta aberta retratava-o como “parvenu pretensioso e rídiculo”, “ambicioso inepto”, “marido de uma pateta que quer ser baronesa”, “pai de um imbecil que quer ser marialva”. Há, porém, em O Anjo Ancorado de José Cardoso Pires, um olhar sage do sobre o mundo dos negócios: “a burguesia de 1900 que, em caso de falência, punha luto e deixava crescer as barbas, suava honra como termo-chave, termo sagrado, como termo-tipo.(...) Ah, mas o pior veio depois. Vieram duas guerras, nada menos que duas, e logo à primeira, com a subida à Banca de candongueiros e novos-ricos, o termo foi-se. À segunda guerra, pior. Os candongueiros que estavam defenderam-se á custa de leis e de aparatos de interesse público dos candongueiros que queriam vir. E passaram a usar palavras mais de raposa e menos lobo: correcto, capaz, prestigioso, termos em que não se empenha tanto a moral do indivíduo”.
Mas na obra de um escritor também pode estar inscrita as mudanças que perpassam pelo mundo. Como dizia António José Saraiva, os versos de Correia Garção (1724-1773), como leitura  “pouco interesse actual de facto oferecem” mas têm um grande “significado histórico-literário”. Neles se podem vislumbar “os novos costumes assinalam já a presença de nova gente na direcção da sociedade, a erosão subterrânea, invisível mas profunda, dos velhos costumes feudalizantes” e  “ burguesia portuguesa está, sem dúvida, a surgir na história com a fisionomia que a caracterizará durante cerca de dois séculos”.

O após revolução de 1974
Entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Novembro de 1975 deu-se uma Revolução económica com a nacionalização de milhares de empresas. Olga Gonçalves em Ora esguardae, que pretende ser o registo em directo dos tempos pós-25 de abril, tem uma única frase que se pode relacionar com as alterações de propriedade e de estatuto social do empresário: “O cabrão do patrão cavou com a massa, e a gente que se desenrasque”, diz uma das personagens. Em 1976 Luís Represas, voz do grupo Trovante, cantava os versos de Francisco Viana: “O homem que explora o homem/ chamem-lhe empreendedor/ é um homem lobo do homem/ é mesmo explorador”.
Em alguns livros de António Lobo Antunes sente-se a presença, uma espécie de coro grego narrativo que nos assoma com pormenores, de uma família, que é uma autêntica saga dos negócios financeiros portugueses. Tem de tudo. Amor ódio, paixão, saber, trabalho, traição, livros antigos, cheques de reis emoldurados. É, contudo no Tratado das Paixões da Alma que se pode vislumbrar o tempo em que, por ausência de grandes e mediáticos magnates, as FP-25 exerciam a sua violência sobre obscuros gestores médios de empresas públicas ou privadas. No livro, porém, descreve-se o atropelamento de um banqueiro pelo grupo de acção armada : “E o cavalheiro imaginou a cadela de coleira vermelha ou o banqueiro barrigudo, de pasta na mão, a atravessarem sem pressa, para o portão da moradia, a rua de plátanos do Estoril, e o jipe conduzido pelo Sacerdote a arrancar de súbito da esquina, a crescer, de faróis acesos, no alcatrão que o reflexo das folhas assemelhava a uma lâmina de água, imaginou o ruído dos travões e a ebulição do motor, imaginou o banqueiro a encolher-se ainda, de palmas abertas, recuando uma passo...”.
Vergílio Ferreira prefere o registo profético. Em Nome da Terra coloca na boca de um agitador de consciência, Salus, um manifesto contra a depredação, sobretudo a capitalista, onde ressoa a célebre comparação de Freud de que o dinheiro seria mais excremento que oiro. Diz Salus: “mas falo mesmo dos tubarões do capital, banqueiros atolados em moedas que são as fezes, o excremento da ganância e da vileza, grossos empresários que quereis empresariar o mundo, o céu com a vossa fumarada, as almas com as vossas cadeias e os rios e os peixes deles com a vossa matéria excrementícia”.
Os romances na voz das suas personagens também disseminam pequenas lições de gestão. Não são as buzzwords que fazem a riqueza dos chamados gurús e consultores, mas pequenas lições de bom senso. O Avô, comerciante e personagem Tocata para Dois Clarins de Mário Cláudio, recorre ao navio, metáfora antiga, que já encapelava a República de Platão, para dar uma pequena lição de gestão: “Dirigir um estabelecimento é como tripular um navio, certificando-se a gente de que lado sopram os ventos, da direcção da agulha de marear, do estado das marés, da disciplina da equipagem, do nível de funcionamento das geringonças que, sem nunca parar, vão labutando, na casa das máquinas, e só assim, meus amigos, sob o plácido olhar do Grande Arquitecto do Universo, é que conseguiremos atingir o porto seguro”.

Henry Burnay e os escritores
Em Portugal, Henry Burnay foi um alvo privilegiado para jornalistas e escritores. Raul Brandão recorda nas suas Memórias, o projecto de um livro sonhado por Fialho de Almeida e que nunca chegou a escrever, chamar-se-ia A Cloaca e “o primeiro capítulo está feito: é uma festa da alta sociedade no claustro da Batalha... Aproveito a época do Burnay e do marquês da Foz, a luta da finança, quando o Foz tinha palácios e o Moser carro a duas parelhas. Deram-se festas esplêndidas... Tenho as figuras todas, homens de negócios e jornalistas, o Mariano e o Navarro... um dia alugam um comboio e vão dar uma festa no claustro da Batalha. É uma ceia formidável, com mulheres de grande roda, políticos, literatos e, dentro do claustro, entre a grandeza e a severidade daquelas pedras, caem de bêbados e mijam pelos cantos, nos túmulos». Fialho de Almeida chamou-lhe «pulgão polimórfico» e Eça de Queirós ter-se-á inspirado em Burnay para a criação do banqueiro Cohen de Os Maias.
Quem não se cansava de fazer do Conde de Burnay o alvo das suas caricaturas e dos seus dichotes, era Rafael Bordallo Pinheiro. Nos seus jornais parecia obcecado pelo Grande Plutocrata, o homem que na imaginação popular, como refere Maria Filomena Mónica, «transformara-se no capitalista por excelência, judeu na origem, internacional nos contactos e dissoluto nos costumes». Na edição de A Paródia de 18 de Dezembro de 1901 retrata-o como um ser longíneo com uma grande mão direita a segurar o mapa de Portugal, enquanto na esquerda se vê um banco de madeira onde o banqueiro se preparava para colocar o país, enquanto ao lado soavam as seguintes estrofes:
Estrangeiro, banqueiro, onzeneiro, folião,
Tem Portugal inteiro apertado na mão:
bancos, províncias, oiro, hotéis, homens, governos,
Querelas, concessões, coroas, céus, infernos,
Companhias, jornais, dinheiros fortes, fracos,
Ministros, imbecis, capelas e tabacos,
Virgens de Santo António, o mapa, os usurários,
Festas nacionais, misérias, centenários,
o clero, a fome, o sangue, o riso... Tudo agarra!
Não é mão, é tenaz! Não é tenaz, é garra.
Para se perceber a dimensão do império, socorremo-nos de um texto de Ramalho Ortigão, comentado por João de Sousa Câmara: “querem dinheiro? Aqui está às ordens: podem ir passando os recibos”. E ergue, acrescentamos nós, a casa bancária Henry Burnay & Ca. “Querem fazendas? Aqui têm amostras à escolha”. Arrenda, adiantamos nós, o Palácio de Cristal e organiza mais tarde os grandes Armazéns Hermínios. (...) “Desejam navegar, serve-se-lhes navegação a vapor!”. E logo levantava a Companhia de Navegação Thétis no Porto. “Convém-lhes segurar alguma coisa, têm aqui companhia que segura tudo!”. E imediatamente criava uma sociedade de seguros.

Alfredo da Silva e os escritores
Por sua vez, Alfredo da Silva, uns dos rutilantes empresários portugueses, não pau para muita obra literária. Joaquim Paço d`Arcos referencia-o nas “Memórias” ao descrever o seu casamento, para o qual o dono da CUF foi convidado: «uma assistência numerosa, reunião mundana, fardas rútilas, casacas sóbrias, toilettes vistosas de senhoras. No fundo da capela o industrial Alfredo da Silva, sem resguardo  pela solenidade decorrente. E o som grave do órgão não abafava, inteiramente o metal da sua voz irreverente a baralhar negócios e maldizer». Aliás, foi em Alfredo da Silva que o escritor se iria inspirar para a personagem Costa Vidal, um industrial e banqueiro que surge na peça de teatro “O Cúmplice” e na série de romances que viriam a constituir a Crónica da Vida Lisboeta. Esta personagem tem «algo do grande lutador» e «sem a sua obesidade e sem a sua truculência (...) desempenha no mundo capitalista um papel semelhante e tem a fibra com que o dirigente da CUF construiu um império». De facto, segundo o escritor, Alfredo da Silva tinha um «feitio chicaneiro» que no entanto não apagava as suas «grandes qualidades de industrial dinâmico e empreendedor».
Como nos anúncios da focopiadoras, muitas vezes a cópia suplanta o original, é uma  das forças do “kitsch”. José Gomes Ferreira dá nota da surpresa no seu diário, “Dias Comuns I - Passos Efémeros”, de súbito, o grande capitalista incorpora os traços da “charge” neo-realista. Escreve em nota de 4 de Junho de 1966: “Diante da Fábrica de  Tabaqueira, em Albarraque , os deuses do neocapitalismo triunfante ergueram uma estátua solene ao Capital de Sempre na forma de Alfredo da Silva . É o símbolo mais grosseiro que vi, até hoje, virado para o Sol: um homem empertigadamente gordo e grosso, de fraque, bengala na mão direita e charuto (sim, CHARUTO!) na mão esquerda. Uma autêntica caricatura de bronze insolente como que saída dos primeiros romances neo-realistas que, pelo visto, não são tão inventados como se nos afiguram agora, em pleno momento de idílio sórdido do neo-socialismo (desossado do marxismo) com o neocapitalismo...”. Está muita próxima da descrição do homem mais rico em A Floresta de Sophia de Mello Breyner: “este era um homem atarracado e feio com duas grossas bochechas de sapo que tremiam dos dois lados da cara. Toda a gente na cidade sabia que ele não se interessava pelo dinheiro”.
Curiosa é a relação, mecenática, entre o empresário Manuel Vinhas e o escritor Luiz Pacheco, conhecido pela sua crónica falta de dinheiro. Como se escreve em “Mano Forte”, um recolha de cartas e postais de Luiz Pacheco, este refere que a edição a “Crítica de Circunstância” seria “paga pelo dr. Vinhas, da Portugália, cervejas”. Estávamos em dezembro de 1964. Sete anos depois, Luiz Pacheco dedicava-lhe a primeira edição dos seus “Exercícios de Estilo”. Em 1975, quando Manoel Vinhas tinha os seus bens nacionalizados e vivia no Brasil, Luiz Pacheco escreveu: “do mecenas Manoel Vinhas falo pelo que me toca. Durante aos, mais de dez, auxiliou-me em dinheiros, renda de casa pontualmente paga, bolsa de estudo em livros, máquina de escrever, a minha charrua, oferecida. Sem em conhecer pessoalmente, apenas alertado para a minha difícil situação económica por um Amigo comum”.