Alfredo da Silva e os escritores, Manuel Vinhas e Luiz Pacheco
Por sua vez, Alfredo da Silva, uns dos
rutilantes empresários portugueses, não foi motivo para muitas obras literárias, perpassa mais nas memórias de alguns escritores. Joaquim
Paço d`Arcos referencia-o nas suas “Memórias” ao descrever o seu casamento, para o
qual o dono da CUF foi convidado: «uma assistência
numerosa, reunião mundana, fardas rútilas, casacas sóbrias, toilettes vistosas de senhoras. No fundo
da capela o industrial Alfredo da Silva, sem resguardo pela solenidade decorrente. E o som grave do
órgão não abafava, inteiramente o metal da sua voz irreverente a baralhar
negócios e maldizer». Aliás, foi em Alfredo da Silva que o escritor se iria
inspirar para a personagem Costa Vidal, um industrial e banqueiro que surge na
peça de teatro “O Cúmplice” e na série de romances que viriam a constituir a
Crónica da Vida Lisboeta. Esta personagem tem «algo do grande lutador» e «sem a
sua obesidade e sem a sua truculência (...) desempenha no mundo capitalista um
papel semelhante e tem a fibra com que o dirigente da CUF construiu um
império». De facto, segundo o escritor, Alfredo da Silva tinha um «feitio
chicaneiro» que no entanto não apagava as suas «grandes qualidades de
industrial dinâmico e empreendedor».
Como nos anúncios da focopiadoras, muitas vezes,
a cópia suplanta o original, é uma das
forças do “kitsch”. José Gomes Ferreira dá nota da surpresa no seu diário,
“Dias Comuns I - Passos Efémeros”, de súbito, o grande capitalista incorpora os
traços da “charge” neo-realista. Escreve em nota de 4 de Junho de 1966: “Diante
da Fábrica de Tabaqueira, em Albarraque
, os deuses do neocapitalismo triunfante ergueram uma estátua solene ao Capital
de Sempre na forma de Alfredo da Silva . É o símbolo mais grosseiro que vi, até
hoje, virado para o Sol: um homem empertigadamente gordo e grosso, de fraque,
bengala na mão direita e charuto (sim, CHARUTO!) na mão esquerda. Uma autêntica
caricatura de bronze insolente como que saída dos primeiros romances
neo-realistas que, pelo visto, não são tão inventados como se nos afiguram
agora, em pleno momento de idílio sórdido do neo-socialismo (desossado do
marxismo) com o neocapitalismo...”. Está muita próxima da descrição do homem
mais rico em A Floresta de Sophia de
Mello Breyner: “este era um homem atarracado e feio com duas grossas bochechas
de sapo que tremiam dos dois lados da cara. Toda a gente na cidade sabia que
ele não se interessava pelo dinheiro”.
Curiosa é
a relação, mecenática, entre o empresário Manuel Vinhas e o escritor Luiz
Pacheco, conhecido pela sua crónica falta de dinheiro. Como se escreve em “Mano
Forte”, um recolha de cartas e postais de Luiz Pacheco, este refere que a
edição a “Crítica de Circunstância” seria “paga pelo dr. Vinhas, da Portugália,
cervejas”. Estávamos em dezembro de 1964. Sete anos depois, Luiz Pacheco
dedicava-lhe a primeira edição dos seus “Exercícios de Estilo”. Em 1975, quando
Manoel Vinhas tinha os seus bens nacionalizados e vivia no Brasil, Luiz Pacheco
escreveu: “do mecenas Manoel Vinhas falo pelo que me toca. Durante aos, mais de
dez, auxiliou-me em dinheiros, renda de casa pontualmente paga, bolsa de estudo
em livros, máquina de escrever, a minha charrua, oferecida. Sem em conhecer
pessoalmente, apenas alertado para a minha difícil situação económica por um
Amigo comum”.