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domingo, 30 de dezembro de 2012

O mito da aventura e do esforço



O elogio e o enaltecimento do esforço escondem muitas vezes a falta de planeamento, inteligência e bom senso, é a principal lição das expedições de Roald Amundsen e Robert Falcon Scott ao Polo Sul em 1912.


A conquista do Polo Sul foi, depois de alguns fracassos, disputada por duas expedições rivais, comandadas, respectivamente, pelo norueguês, Roald Amundsen, e pelo inglês Robert Falcon Scott, que partiram em outubro de 1911, separados por apenas duas semanas. Roald Amudsen e a sua equipa atingiram o Polo Sul a 14 de dezembro de 1911 e regressaram sãos e salvos; o grupo liderado por Robert F. Scott chegou a 17 de janeiro de 1912 ao ponto onde ondulava a bandeira norueguesa e estava uma carta de Roald Amudsen. No regresso os expedicionários sucumbiram à fome, ao frio extremo e à exaustão. Os corpos foram encontrados oito meses depois por uma equipa de resgate.

Entre os despojos estavam os diários de Robert F. Scott, cuja publicação foi a primeira pedra para a hagiografia deste herói moderno. Narravam-se gestos de grande coragem e abnegação. Um dos membros do grupo, que se sentiu sem forças e como um peso morto na equipa, abandonou a tenda dizendo: “Vou sair e sou capaz de demorar”, e foi morrer para longe. Robert F. Scott escrevera na última entrada do seu diário: “Enviem este diário à minha esposa”, e depois rasurou substituindo por “minha viúva”.

A expedição de Robert F. Scott parecia conter todos os ingredientes para uma saga em que se exaltasse a luta contra tudo e contra todos, a resistência, a coragem, o esforço, a superação de obstáculos até à morte. Para a história, numa espécie de vitória póstuma, acabou por ficar a epopeia dramática de Scott feita de biografias, livros de viagens, filmes, estátuas e homenagens várias.

O tempo fez o seu trabalho de depuração e enxugou os excessos. Começou-se a questionar o estilo de liderança de Robert F. Scott, a qualidade das suas decisões, as práticas que valorizavam o esforço em vez da preparação, o sacrifício em vez da simplicidade. Como escreveu o rival Roald Amundsen, “a aventura é o outro nome para a falta de planeamento”.

O sucesso de Roald Amundsen baseou-se num estudo do terreno (estudou a região durante oito meses), na experiência (já tinha passado um inverno na Antárctica e participado de excursões ao Ártico), no conhecimento (sabia que cães esquimós eram mais adequados do que os póneis escolhidos por Robert F. Scott para puxar os trenós), no equipamento (sacos de dormir forrados com peles grossas, uma cabana semipronta e várias tendas impermeáveis), no planeamento (fez várias incursões, até 85 graus de latitude, em que depositou reservas de comida).

Nas suas anotações, Robert F. Scott culpou, sobretudo, o mau tempo pelo fracasso. Mas como Roald Amundsen anotou “a vitória espera por aquele que tem tudo em ordem, é o que se chama sorte. A derrota é certa para aquele que falhou ao tomar as devidas precauções, é o que se chama azar”. Do ponto de vista de gestão, o exemplo de boa prática é a expedição de Roald Amundsen porque chegou primeiro, foi eficaz, fê-lo com facilidade, foi eficiente. Fez o seu trabalho bem feito.
Filipe S. Fernandes

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

É essencial gerir


Mesmo que haja um só caminho, há sempre várias formas de preparar a caminhada e de o percorrer.
A história é antiga, tornou-se um exemplo canónico para inúmeros teóricos e práticos da gestão, o últimos dos quais Jim Collins e Morten T. Hansen em Great by Choice, e conta-se em dois parágrafos. Há cerca de 101 anos, duas equipas, uma liderada por Roald Amudsen e outra por Robert Scott, partiram à conquista do Polo Sul. O primeiro cumpriu o objectivo e regressou para contar enquanto o segundo sucumbiu na sua empreitada. A moral é que para um objectivo pode haver vários caminhos, formas diferentes de agir, motivar, planear, e que afinal até pode haver alternativas. Por isso talvez fosse uma boa altura para trocar umas ideias sobre gestão, como parece ser a intenção de Teodora Cardoso, presidente do Conselho de Finanças Públicas, quando disse: "É essencial gerir melhor." Por isso, talvez seja importante que no meio deste vendaval fiscal e da cacofonia europeia que se fale sobre a gestão em Portugal.
Fernando Pessoa, que podemos considerar como o primeiro teórico de gestão português, reflectiu, e com alguma minúcia, sobre os preceitos práticos da boa gestão e da excelência empresarial, e o cerne da sua preocupação era a organização, o que não deixa de ser interessante porque é hoje provavelmente uma das principais causas para as nossas dificuldades, a tão decantada competitividade do país. Para Fernando Pessoa a organização era mais do que um processo tecnológico e um conjunto de procedimentos. A sua visão estava próxima do que hoje chamamos gestão. Dizia que “a organização é, por sua natureza, um fenómeno intelectual, um trabalho de inteligência”.
Noutros textos, alguns dos quais publicados na Revista de Comércio e Contabilidade, dizia que “organizar é, essencialmente, um fenómeno intelectual. Há muitas coisas que se executam por palpite, imensas que se fazem empiricamente, pelo hábito e a experiência. Mas a organização estável, ou seja a organização propriamente dita, é um trabalho de inteligência”. No texto Processo de Organização escreveu que "sistemas, processos, móveis, máquinas, aparelhos são - como todas as coisas mecânicas e materiais - elementos puramente auxiliares. O verdadeiro processo é pensar; a máquina fundamental é a inteligência." Se alguma lição de actualidade se pode retirar destes textos de Fernando Pessoa é a sua insistência na inteligência (que é educação, que é formação, que é discernimento, que é ciência, que é subir na cadeia de valor, que é gestão e organização) como principal recurso estratégico para o nosso desenvolvimento.
Filipe S. Fernandes

Os textos citados encontram-se em Filipe S. Fernandes, “Organizem-se! A Gestão Segundo Fernando Pessoa”, Oficina do Livro, Lisboa, 2007.