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sábado, 6 de julho de 2013

Portugueses: executantes acima da média

Portugueses estão muito acima da média no mundo como executantes. Precisamos, sim, de mais organização, criticar menos, fazer mais, decidindo.

Rui Paiva, CEO da WeDo Technologies

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Portugal dos empresários e dos gestores

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe ate ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nos...
Alexandre O’Neill

Portugal é tema dominante sobretudo desde que se instalou, a partir do início do novo milénio, a ideia de país crepuscular e em que o Estado é, ao mesmo tempo, entidade tentacular, regaço protector e causa de tantos males. Foram também feitas referências às nossas idiossincrasias… Belmiro de Azevedo refere que «em Portugal, o que é corrente é algumas pessoas mandarem e outras trabalharem, espírito que terá que desaparecer muito em breve». Mas há quem, com a experiência de viver várias vidas numa só, saiba antecipar o futuro, como José Manuel de Mello, que viu como a sombra da dívida se iria tornar um pesadelo. «Os empresários hoje em dia gerem dívida. Não há dinheiro para fazer nada. Há uma geração que tem a mão esquerda mais desenvolvida por causa dos subsídios que recebe de Bruxelas».
Há ainda quem tivesse olhado para as nossas fragilidades como bases para um novo horizonte, marcado pelo voluntarismo e um whisfull thinking. Henrique Neto que viu a oportunidade de um Portugal diferente no século xxi, dizendo que «isto de Portugal ser um país subdesenvolvido é óptimo, porque temos mais oportunidades do que os desenvolvidos. O Porter quando cá esteve disse: vocês perderam o séc. xx. E eu digo: óptimo, agora vamonos organizar para não perder o xxi. Com o xx não nos preocupamos. Não temos as infraestruturas típicas do séc. xx; podemos, por exemplo, passar à sociedade de informação com outra facilidade». Mas é rápido o desencanto.
Interessante é a hermenêutica da alma nacional com o primeiro traço a ser feito pelo judeu de origem polaca que vive repartido por Portugal e Brasil, André Jordan. «Os Portugueses não gostam de ouvir e de dizer não.» A pequenez e o paroquialismo do país são também merecedores de análise. António Murta, fundador da Enable, aconselha a que se proíbam «as empresas que só pensam em Portugal» porque, como explica o gestor Miguel Calado, «lá fora, quando se fecha uma porta, há sempre outras que se abrem. O problema é que em Portugal não existem tantas portas».
A organização é outro dos calcanhares de Aquiles referidos por estes práticos. António Raposo de Magalhães é vitriólico ao dizer que «os portugueses foram feitos no 8º dia da criação. Têm o dom da asneira, semelhante ao que tinha o D. Sebastião descrito por Oliveira Martins. Acabam sempre por abandalhar. Não têm a menor capacidade de organização. É verdade que também têm as correspondentes virtudes». Isto é reforçado por Américo Amorim que fez, no espaço de uma vida, uma das maiores fortunas portuguesas: «penso que o problema de Portugal não é tanto a falta de recursos, mas a falta de organização.»
O olhar mais económico e de longo alcance de João César das Neves, que estudando o fenómeno do crescimento económico consegue sobre- levar as qualidades. «O sucesso da economia nacional baseia se na flexibilidade, ligeireza, criatividade e improvisação, sobretudo, ante as dificuldades», defende o economista.
Para Américo Amorim, os portugueses são generosos mas insatisfeitos pois «querem aquilo que não têm e, depois, quando o têm, já não querem». Para o professor Adriano Freire, temos «enorme criatividade mas não temos disciplina», enquanto Francisco Vanzeller afirma que «sempre fomos comerciantes, investimos sempre no curtíssimo prazo».
O historiador José Mattoso aponta a forma centrípeta do Estado central – «o centralismo em Portugal é uma constante com uma força espantosa, que quase faz desaparecer o País» – que fez com que os portugueses se tenham dedicado mais a comercializar do que a produzir. Mas o empresário Manuel Vinhas explicava esta acentuação pela história: «o português e na sua feição económica, e esta determinada pela sua índole, predominantemente de acção comercial. Viajar, ser hábil no trato com homens diferentes, levar o que falta trazendo as novidades, negociar acordos, obter lucro rápido são característicos da nossa maneira através dos séculos. Em sentido diferente também nos caracterizamos por trabalho pouco constante e metódico, individualismo comprometedor de grandes organizações, pouco gosto pelo investimento de longo prazo e ausência de mentalidade a que se pode chamar industrial». Detectava ainda nos ciclos de riqueza e pobreza de Portugal «uma vocação para a ruína por oposição a vocação para o progresso que deve assentar numa linha de contínuo desenvolvimento».
Miguel Pais do Amaral, um raider mas também um empreendedor, costuma ironizar com o que ele chama de «lusitana competência» para se expulsar os mais empreendedores em cada época: «primeiro foram os judeus que acumulavam riqueza, conheciam o valor do dinheiro; depois as ordens religiosas que abundavam em organização e método ajudando a manter a ordem social; depois os ambiciosos trabalhadores da classe média empobrecida, forçados a emigrarem; e finalmente no pos-25 de Abril, primeiro com a fuga apressada dos empresários para fora do país, depois, a partir dos anos 80, com a sedimentação de relevantes talentos portugueses no exterior». Tal como todas as conclusões globalizantes e sintéticas, tem tanto de verdade como de exagero.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

A organização segundo Fernando Pessoa

Texto base da TEDx proferida na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa em Setembro de 2012


O poeta brasileiro, Ferreira Gullar, costuma chamar-lhe “Fernando Pessoas”. É uma forma de incluir no seu nome os inumeráveis heterónimos que gerou tais como Álvaro de Campos, Bernardo Soares, Ricardo Reis, e a diversidade de textos que escreveu como O Livro do Desassossego, O Banqueiro Anarquista, A Mensagem, a Tabacaria. E se hoje é um dos gigantes da literatura de língua portuguesa e um dos cânones da literatura universal a sua curiosidade e reflexão espalharam-se para além do domínio literário, propagaram-se pela filosofia, o esoterismo, a economia. Preocupou-se com o que definia como “quotidiano e tributável”. Estudou numa escola comercial na África do Sul e isso marcou muito do que fez profissionalmente. Trabalhou em muitos escritórios da baixa lisboeta como correspondente estrangeiro em casas comerciais, que, juntamente com a função de tradutor, acabaram por ser as suas profissões principais. Foi sempre um profissional liberal pois como escreveu “odeio todo o trabalho imposto
Publicitário
Uma das suas actividades profissionais mais conhecidas é a sua prática publicitária como este anúncio para a Coca-Cola publicado pelo Diário de Lisboa em 1927 e que diz “O refresco americano Coca-Cola: No primeiro dia: Estranha-se No quinto dia: Entranha-se”. Curiosamente, a frase que ficou para a história foi a escrita pelo Ricardo Jorge, director-geral da Saúde, então no âmbito do Ministério do Interior, a 23 de dezembro de 1927 em que explicava as razões para a proibição: “Nos anúncios com que se fez nos periódicos propaganda da Coca-Cola, dizia-se: 'A princípio estranha-se, mas depois entranha-se.' Um convite ao vício ou uma especulação com o vício.”
Lúdico
Este indisciplinador intelectual tinha uma grande vontade empreendedora pois teve uma gráfica, uma editora de livros, fez revistas, criou várias empresas de comissões, foi inventor. Estes seus interesses tinham como objectivo, como ele dizia, “organizar em perfeito paralelismo a minha vida prática e a minha vida especulativa, de modo a que a primeira nunca possa prejudicar a segunda, à qual está, por um dever mais alto, subordinada”.
Como dizia Richard Zenith, nos negócios interessavam-lhe mais pelo aspecto lúdico do que pelo lucro mas era sempre empenhado. Numa carta à namorada Ofélia de 11 de Junho de 1920 queixa-se: “querem, em, geral, que eu faça tudo – que eu, além de ter as ideias e indicar a maneira de as organizar, me ocupe também de arranjar os capitais e de fazer quanto mais for preciso para por a empresa em marcha”.
Podemos dizer a partir das suas ideias económicas que Fernando Pessoa tinha um concepção liberal da economia defendendo a concorrência e o mercado. O seu programa de desenvolvimento para Portugal assentava na industrialização, nas exportações e na organização.
Aliás tem num manuscrito uma frase lapidar sobre as empresas e estas “existem para um fim comercial, de lucro; não para um fim moral ou filantrópico”, que soa a Milton Friedman…
Industrialização
Em 1919 publicou num jornal sidonista em que participava na gestão, A Acção, um texto intitulado Como Organizar Portugal em que surgia como defensor da industrialização, um pouco contra as ideias dominantes mais agrárias e comerciais, mas numa época em que se deu um surto de industrialização.
Dizia que “Como se trata de um país atrasado, e todos os países atrasados são predominantemente agrícolas, é evidente que a única transformação profissional a fazer, e que preenche todas as condições exigidas, é a industrialização sistemática do país. Educação simultaneamente da inteligência e da vontade, transformador ao mesmo tempo da mentalidade geral e do atraso material do país, o industrialismo sistemático, sistematicamente aplicado, é o remédio para as decadências de atraso, é, portanto, o remédio para o mal de Portugal”. No seu espólio encontra-se um texto incompleto sobre a política industrial.
Estado
Apesar disso, tinha uma grande desconfiança em relação ao Estado:
“Economicamente o Estado é um mito. O Estado administra sempre mal. O Estado drena a energia particular
De todas as coisas “organizadas”, é o Estado, em qualquer parte ou época, a mais mal organizada de todas. E a razão é evidente”
Porque para Pessoa a administração de Estado não deveria passar da “da estrita actividade fiscal e tributária que só ao Estado compete, porque só ao Estado pode competir” mas o Estado deveria evitar a administração de comércios ou indústrias.
Exportações
Além do que escreveu, por exemplo, na Revista de Comércio e Contabilidade, são inúmeros os textos, os relatórios, as notas e os apontamentos existentes no espólio sobre o tema do comércio de importações e exportações, o que também tem a ver com a sua ligação profissional a este universo. E esta preocupação era tão mais vincada pelo facto de considerar que
A exportação portuguesa é, em relação ao que poderia ser ou tornarse, pequena, mal orientada, e mal coordenada. Nem há concorrência interna, o que significaria actividade intensa entre os exportadores individuais, nem cooperação nacional entre eles”. E ainda hoje o peso das exportações no PIB é baixo, cerca de 34% contra 80% na Bélgica ou 90% na Irlanda.
Os seus textos sobre esta temática têm a particula­ridade de serem tanto sobre projectos de organização empresarial virados para os mercados externos, em que muitas vezes chegam à minúcia da organização por depar­tamentos, como reflexões sobre o serviço a prestar aos clientes, o marketing e do próprio packing. Desce ao detalhe de mencionar “o aperfeiçoamento das embalagens”, passando pela ideia de que a empresa exportadora devia comercializar os seus produtos “sob marcas próprias”. De facto, nesta época, as exportações portu­guesas eram sobretudo de produtos alimentares, nomeadamen­te vinhos correntes e vinho do Porto, com a agravante de serem vendidos a granel, ou seja, as exportações nacionais tinham um baixo teor de transformação industrial, com muito pouco valor acrescentado.
Por exemplo, “A essência do comércio” é quase uma aula moderna de marketing com a sua insistência do “foco no cliente”. “Um comerciante, qualquer que seja, não é mais que um servidor do público, ou de um público (…) Ora toda a gente que serve, deve, parecenos, agradar a quem serve. Para isso é preciso estudar a quem se serve (…) temos que ver é como eles efectivamente pensam, e não como é que nos seria agradável ou conveniente que eles pensassem”.
Num dos textos “Bases para a formação de uma empresa de produtos portugueses”, imagina uma empresa que funcionasse como um agrupamento de várias empresas com o objectivo de ter capacidade de exportação e de implantação nos mercados internacionais, as empresas estabelecer-se-iam “gradualmente no estrangeiro, e começando pelas principais cidades, lojas para a venda directa ao público de produtos portugueses”.
Organização
Pessoa reflecte, aliás fá‑lo com alguma minúcia, sobre os preceitos prá­ticos da boa gestão e da excelência empresarial e o cerne da sua preocupação é a organização, o que não deixa de ser interessante porque é hoje provavelmente uma das principais causas para as nossas dificuldades, a tão decantada competitividade do país.
Para Fernando Pessoa a organização era mais do que um processo tecnológico e um conjunto de procedimentos. A sua visão ia para o que hoje chamamos gestão. Como dizia Fernando Pessoa “a organização é, por sua natureza, um fenómeno intelectual, um trabalho de inteligência. A referida “indústria de organiza­ção” é, portanto, uma indústria intelectual”, que podemos supor que seria a consultoria e na época em que escrevia estas palavras era fundada nos Estados Unidos a McKinsey, a consultora de estratégia mais relevante.
E noutro texto diz “organizar é, essencialmente, um fenómeno intelectual. Há muitas coisas que se executam por palpite, imensas que se fazem empiricamente, pelo hábito e a experiência. Mas a organização estável, ou seja a organização propriamente dita, é um trabalho de inteligência”.
No texto processo de organização escreveu que “sistemas, processos, móveis, máquinas, aparelhos são — como todas as coisas mecânicas e materiais — elementos puramente auxiliares. O verdadeiro processo é pensar; a máquina fundamental é a inteligência…”
O texto como se organiza uma trading: “nós, os portugueses, não temos uma tradição comercial; não somos, portanto, naturalmente e instintivamente comerciantes. Sendo assim, temos de compensar essa deficiência com uma apli­cação da inteligência — com a organização, portanto
Conclusão
Se alguma lição de actualidade se pode retirar destes textos de Pessoa é a sua insistência na inteligência (que é educação, que é formação, que é discernimento, que é ciência, que é subir na cadeia de valor, que é…) como principal recurso estratégico para o nosso desenvolvimento.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Estrategos e logísticos e o chefe


Depois de perdidas (ou roubadas…) as eleições presidenciais de 1958 e impedido de regressar ao que ocupava de Director Geral da Aviação Civil, Humberto Delgado tentou organizar as forças que o apoiaram num Movimento Nacional Independente. Mas as coisas não estavam a correr bem e numa carta de Carta de 20 de Outubro de 1958 ao directório, constituído por Vieira da Almeida, Artur Andrade, Moreira d’Assunção, Cunha Leal, António Sérgio e Arlindo Vicente, tinha dois desabafos muito interessantes sobre o funcionamento interno das organizações:
Numa delas dizia que naquele movimento “em que abundam os estrategos, mas faltam os logísticos, em que abundam cérebros para congeminar, mas faltam braços para fechar e selar cartas, em que há despesas, mas não há bolsas”. Noutra ficava evidente a dificuldade que ainda hoje em Portugal se tem em aceitar as críticas e de as levar para um plano pessoal: “o chefe /Humberto Delgado/ é um homem que adora a colaboração a que, aliás, por muitos anos de trabalho colectivo e internacional está habituado, ao contrário de tantos que pregam democracia, mas à mais pequena discussão se tornam egocêntricos, egotistas, falantes, mas não ouvintes”. 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

É essencial gerir


Mesmo que haja um só caminho, há sempre várias formas de preparar a caminhada e de o percorrer.
A história é antiga, tornou-se um exemplo canónico para inúmeros teóricos e práticos da gestão, o últimos dos quais Jim Collins e Morten T. Hansen em Great by Choice, e conta-se em dois parágrafos. Há cerca de 101 anos, duas equipas, uma liderada por Roald Amudsen e outra por Robert Scott, partiram à conquista do Polo Sul. O primeiro cumpriu o objectivo e regressou para contar enquanto o segundo sucumbiu na sua empreitada. A moral é que para um objectivo pode haver vários caminhos, formas diferentes de agir, motivar, planear, e que afinal até pode haver alternativas. Por isso talvez fosse uma boa altura para trocar umas ideias sobre gestão, como parece ser a intenção de Teodora Cardoso, presidente do Conselho de Finanças Públicas, quando disse: "É essencial gerir melhor." Por isso, talvez seja importante que no meio deste vendaval fiscal e da cacofonia europeia que se fale sobre a gestão em Portugal.
Fernando Pessoa, que podemos considerar como o primeiro teórico de gestão português, reflectiu, e com alguma minúcia, sobre os preceitos práticos da boa gestão e da excelência empresarial, e o cerne da sua preocupação era a organização, o que não deixa de ser interessante porque é hoje provavelmente uma das principais causas para as nossas dificuldades, a tão decantada competitividade do país. Para Fernando Pessoa a organização era mais do que um processo tecnológico e um conjunto de procedimentos. A sua visão estava próxima do que hoje chamamos gestão. Dizia que “a organização é, por sua natureza, um fenómeno intelectual, um trabalho de inteligência”.
Noutros textos, alguns dos quais publicados na Revista de Comércio e Contabilidade, dizia que “organizar é, essencialmente, um fenómeno intelectual. Há muitas coisas que se executam por palpite, imensas que se fazem empiricamente, pelo hábito e a experiência. Mas a organização estável, ou seja a organização propriamente dita, é um trabalho de inteligência”. No texto Processo de Organização escreveu que "sistemas, processos, móveis, máquinas, aparelhos são - como todas as coisas mecânicas e materiais - elementos puramente auxiliares. O verdadeiro processo é pensar; a máquina fundamental é a inteligência." Se alguma lição de actualidade se pode retirar destes textos de Fernando Pessoa é a sua insistência na inteligência (que é educação, que é formação, que é discernimento, que é ciência, que é subir na cadeia de valor, que é gestão e organização) como principal recurso estratégico para o nosso desenvolvimento.
Filipe S. Fernandes

Os textos citados encontram-se em Filipe S. Fernandes, “Organizem-se! A Gestão Segundo Fernando Pessoa”, Oficina do Livro, Lisboa, 2007.